terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Esculpada

Algumas pessoas acreditam com tanta força naquilo que pensam que enganam a si mesmos. Era o caso daquela menina morena. Nunca entendeu o porquê de tanta culpa. O mundo era ruim e a culpa era só dela.

 A jabuticaba estava pequena – e não a sonhada bitela preta que tantas e tantas vezes catou do pé no sítio, e tacou na boca, explodindo-a com os dentes e liberando aquela gosma branca, grossa, adocicada e prazerosa – e era sua culpa não ter sido capaz de oferecer tamanho mesmo prazer, que teve, ao seu amor. 

Porque havia escolhido a cor preto-azulado para os cabelos – e não o loiro que sempre desprezou porque aquilo era coisa de patricinha fútil e desprovida de inteligência, seguidora de moda e de coisas pré-estabelecidas que ela, obviamente, não aceitava e nunca aceitaria por ser, dessa forma, considerada por si mesma melhor do que os outros – se sentiu culpada por ser diferente.

 Havia pedido demissão – e não continuado no trabalho que odiava profundamente, rodeada por pessoas que odiou o tempo inteiro em que trabalhou ali, mesmo sem saber por que odiava tanto (e também por isso se sentia culpada) – era culpada, pois deveria dar o sangue até os último minuto, ter a responsabilidade das tarefas e executá-las perfeitamente: mesmo que fosse na prorrogação ou pênaltis.

A velha que trabalha no supermercado estava de mal humor. Ela nunca tinha visto a velha, e nem falava a língua dela. Mas a velha não sorriu quando ela entrou, e resmungou quando ela sorriu ao entregar o produto que estava comprando. Depois de pagar, ela saiu da loja dizendo “até logo”, mas a velha nem respondeu, nem olhou na cara dela. Ela se sentiu culpada. Como, no mundo, alguém não se sentia melhor, mais bem humorado e feliz só com a sua simples presença, seu sorriso, sua atenção? A velha deveria ter conseguido sorrir pra ela, e se nada aconteceu de positivo naquele simples comprar de pão, a culpa era, sim senhora, dela.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Receita Desmédica

Saber por que doi.
Não fingir que não doi.
Não achar que não se pode doer.

sábado, 12 de maio de 2012

Passarinho

Quando eu penso em você
os passarinhos cantam
e você sorri
que eu sei.


Raquel Sonnenstrahl
Grundstufe
2010

domingo, 15 de abril de 2012

Querer

Queria
querer
o eu
que…

Quero
querer
eu que
o…

Quisesse
querer
que o
eu…

Quisera
que
eu o
queira.

Mas eu não quero mais.


Raquel Sonnenstrahl
Grundstufe
2010

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Sonhos

Se os sonhos são pedaços não lineares de nossas vidas,
o que somos nós?
Pedaços ajuntados e alinhados de nossos sonhos?
Sonhos realizados?

Quando estes se realizam, acaba-se a magia
seguimos em função de sonhar de novo,
e o começo de um sonho realizado
é a frustração de ter que recomeçar.

Sonhos alienares, fios atemporais,
que sabe-se lá para onde nos levarão.
Temos apenas a certeza
de que nos levarão para um caminho desconecto,
por entre nosso passado, presente e futuro,
por entre aquilo que fomos e somos, para chegarmos ao que seremos:
seres desconexos, seres alineares, seres confusos,
como os sonhos no despertar do dia.


Raquel Sonnenstrahl
Grundstufe
2008

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Passeio


Duas mãos velhinhas
unidas, passeiam na minha frente
pelas ruas frias
e antigas.

Serão seus sonhos
antigos existentes?
Terão conquistado juntas,
ou nada?

Permanecem andando...
e a permanência
parece existente
como os sonhos, um dia,
pareceram conquistáveis.

Eu, ao longe, devago
se as alcançarei
como ainda não conquistei
os sonhos
antigos, não-existentes; nada.


Raquel Sonnenstrahl
Grundstufe
Janeiro 2012

sábado, 3 de dezembro de 2011

Insomnia


 Abro os olhos e vejo a ovelha
que respira lentamente
embebida em sono profundo

eu não durmo há 3 meses

Fecho os olhos e vejo meu mundo
que gira rapidamente
embebida num medo profundo

 eu não durmo há 3 décadas

Abro os olhos e giro rapidamente
para a parede que está parada
embebida em branco profundo

não durmo há 3 dias?

Fecho os olhos e respiro lentamente
procuro o ar que está parado
embebida num cansaço profundo

não durmo há 3 séculos?


Raquel Sonnenstrahl
Grundstufe
2010